quarta-feira, 14 de junho de 2017

TEU CORPO – Rafael Rocha

Para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo.
Não envelhece. Não tem rugas. Sempre o mesmo.
Até quando escrevo um poema olhando um outro
de qualquer outra mulher eu vejo o teu vivaz e lindo.
Eu sei que o tempo torna as coisas carcomidas
mas teu corpo em mim continua sempre novo.
Sempre como aquele de décadas antigas
esperando meus beijos e minhas carícias.

Irei assim acompanhando essa imagem de teu corpo
ainda que nós ambos estejamos desenvoluindo
e tendo outros olhos a olhar para outros corpos
fingindo e mentindo que ainda são os de antes.
Mas para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo
onde redescubro sonhos e desejos de paixão.
Sim! Sim! Porque estamos vivos na paisagem
e não custa sonhar e acreditar que somos e somamos.

Tudo isso serve para a gente espantar a morte
como a beber uma cerveja, um vinho ou um licor.
Viver é uma bebida venenosa a matar lentamente
e isso nós sabemos e criamos antídotos com o olhar.
O teu corpo vem em sonhos e traz variedades
dos momentos de quando o destino bateu na porta
e de quando nunca e jamais as nossas saudades
foram ideias mortas.

Para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo.
Não envelhece. Não tem rugas. Sempre o mesmo.
É um poema para meu olhar envelhecido de hoje.

HOMENAGEM A CHE GUEVARA

O jornal HUMANITAS, do Recife/PE, edição nº 60, junho de 2017, homenageia a data de nascimento do Che Guevara 
- 14 de junho de 1928 - 
com a publicação de um poema de sua autoria na PÁGINA 3

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A TUA MORTE EM MIM – Adolfo Casais Monteiro

À memória de Raquel Moacir

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
descobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até a hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido.

AFOGAMENTO – Adriane Garcia

Há um desejo
De imersão das águas
Adentrando narinas

Um treinamento
Pelo não desespero de
Afogar-se

Desejo da palavra aquática
Da palavra amniótica
Da palavra silenciosa
Dos peixes

Não um coração batendo
Que os assuste.

O ÚLTIMO RECADO ANTES DO INVERNO - Francisco José Viegas

O tempo vai passando. Vamos morrendo devagar,
subindo o rio, descansamos sob os choupos,
as vinhas escurecem com a luz do dia.

Muitas vezes, nesta altura do ano, não chega a amanhecer,
a água do rio turva rente às margens,
os areais prolongam-se, claros demais, brancos.

O tempo vai passando entre a erva,
emudece como o musgo do Outono nos pinhais,
escuta as vozes poisando mais além, entre os canais

onde a morte aguarda, serena. Amo estas árvores,
é o último recado que gostaria de deixar,
mais que as mulheres que me amaram,
ou que amei. O tempo vai passando devagar.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

NADA DE NOVO – Lisa Alves

Nada é novel,
tudo é reprodução:
o seu glamour,
o seu tablado,
a new poetry,
seu engajamento
e sua falta de chão.

Nada é preciso,
tudo é mutação:
sua pátria,
seu partido,
a pele,
o marido
e seu status quo.
Nada de novo no front.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

DECEPADO – Clara Baccarin

ele me mandou uma foto do pinto
um close do pinto
um pinto ereto na minha tela
sem pernas, sem corpo, sem mãos
sem homem

um pinto sem história
decepado e duro
um falo que não fala
e mesmo que falasse
não me diria nada

um pinto solto
que eu não conhecia
e nem tinha imaginado
um dia
as formas, a potencia
a essência
a geometria

um pinto que não me excita
antes me desanima
pela falta de empatia
com o universo
feminino

ele me mandou a foto do pinto
e eu que pensava no sorriso
eu que pensava nas ruas
que a gente andaria
eu que sentia
as conversas e os vinhos
eu que via a companhia
o abrigo, o carinho

vi o pinto
um pinto imponente
dominador
furador de sonhos
protagonizando
a nossa história
interrompida

quinta-feira, 18 de maio de 2017

PASSANDO O TEMPO – Antonio Carlos Gomes

Se não se pensar no tempo
Ele não irá passar,
Será o tempo parado
Um sonho de um só lugar?

Nós apreendemos o tempo
Criamos sua percepção
Mas, ele é diferente na roça
Ou andando de avião.

Voando indiferente ao tempo
Vejo de minha janela
Duas borboletinhas
Beijando a mesma rosinha.
[Dançam e beijam]
Percorrem toda primavera
No roçar das asas brancas,
E o tempo não se marca
Apenas resvala a eternidade

terça-feira, 16 de maio de 2017

A ARMA NOSSA DE CADA DIA - Gilberto Nogueira de Oliveira

O poeta está armado...
Disse ele empunhando uma caneta.
O pintor está armado...
Disse ele empunhando um pincel.
A policia está armada...
Disseram eles, combatendo o povo.
Chegou a tropa de choque,
Abrilhantando a desgraça.
O camponês está armado...
Disse ele empunhando uma foice.
O operário está armado...
Disse ele empunhando um martelo.
O povo está armado...
Disseram eles de encontro à esperança.
O professor está armado
Disse ele empunhando um livro.
O governo está armado...
Disseram eles promovendo o terror.
A desgraça brilha na praça.
O povo de encontro à desgraça.
E a desgraça brilha... na praça.

domingo, 14 de maio de 2017

O DESEJO QUE A DEUSA ACORDA - Talis Andrade


in “A Partilha do Corpo”, p.94

Que culpa tens
quando a deusa
usa teu corpo
para o desejo
andejo

Da deslumbrante deusa
o poder de despertar
a fera dos instintos
a fera noturna
escondida dentro
de você

Da deusa o poder
de despertar
minha ternura de anjo
o acalento conceder
para o teu choro
teu secreto desejo
e dor

A deusa cobre teu corpo
com um manto estrelado
Teu corpo nu iluminado
Teu corpo apascentado

A deusa não demora muito
pelo muito que deixa
Imortal o desejo
a deusa acorda
Imortal o amor
que vê a radiosa
face da deusa

sexta-feira, 12 de maio de 2017

CÂNTICO DE MULHER - Dora Incontri

(Em homenagem ao 8 de março)

O meu nome é mulher 
Luar de pedra 
Lua pálida que se inclina 
Sobre a noite em mistérios 
E semeia feminina 
Seus perfumes etéreos 
Peregrina dos séculos 
Pedra que esteia 
Orgânica, na terra 
Vulcânica se alteia 
Pedra em que se medra 
A seiva na veia. 
O meu nome é mulher 
Tantas vezes escrava 
Proclamada rainha 
E que no tempo escava 
Sua sina liberta! 
Que ainda assim caminha 
Com essa veia aberta 
Para ser-me só minha! 
O meu nome é mulher 
Suave e guerreira 
Cantante e altaneira 
Cortante e materna 
Nunca mais calada 
Nem mais exilada 
De sua força eterna! 
O meu nome é mulher 
Que nunca mais se quer 
Abaixo ou metade 
Com véu ou despida 
Ao desejo do macho. 
Acuada ou vendida. 
Nunca mais capacho 
De um mundo viril. 
Mas ternura inteira 
Nem puta, nem freira 
Feminina e varonil. 
O meu nome é mãe 
Meu abraço é colo 
O meu cântico é cálido 
O meu peito é solo. 
Não renego filhos 
Não desamo os homens 
Não desmamo ninguém. 
Não disputo vintém. 
Não invejo brilhos 
Sou meus próprios trilhos. 
Sou a musa e a poeta 
Sou livre e alerta. 
Vou por altas veredas 
Sem verdades azedas! 
Mas nada concedo 
Nem conheço o medo 
Apenas me cedo 
O rosto enxugado 
E um manto rendado 
De múltiplas estrelas 
Sabendo que um dia 
Em tempos serenos 
Em meus olhos plenos 
Hei de rútilas tê-las 
As fúlgidas estrelas...

terça-feira, 2 de maio de 2017

ABUTRES - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Não farei mais discursos falando de saudades
muito menos com lágrimas para marcar a dor.
O instante de agora não comporta essa ilusão
ou qualquer canção falando de amor.
Meus versos estão vestindo roupas cruéis
e perdendo os motivos de serem singelos.
Não mais farei discursos que façam chorar
falando de saudades e de lugares comuns.

Hoje os dias marcam descontroles e maldições.
e até os ares espaciais estão vazios e infelizes.
Abutres alçam voos em busca de suas presas
e os assassinos matam até os animais dos oceanos.
Meus versos agora vestem roupagem de aço
para tentar viajar no mundo dentro da realidade.
Não mais farei discursos que façam chorar
falando de lugares comuns e de saudades.

Tempus fugit!
A espécie humana tornou-se vulgar
agindo em total e monstruosa barbárie.
Os abutres vêm em mergulhos pelos ares
e os inocentes serão as suas primeiras vítimas.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ESPELHO - Sylvia Plath

Tradução de André Cardoso


Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro –
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila.
Rostos e escuridão nos separam toda hora.

Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,
Buscando na minha superfície o que ela realmente é.
Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e as reflito fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e um agitar das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha
Se ergue em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível.

terça-feira, 25 de abril de 2017

CANÇÃO - Jacques Prévert

Qual dia somos nós
Nós somos todos os dias
Meu amigo
Nós somos toda a vida
Meu amor
Nós nos amamos e nós vivemos
nós vivemos e nós nos amamos
E não sabemos o que é a vida
E não sabemos o que é o dia
E não sabemos o que é o amor

ENCONTRO - Marina Tzvietáieva



Tradução de Décio Pignatari

Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor … Então, enterre-me no céu!